A 1 de Dezembro de 1640 (faz hoje 369 anos) foi restaurada a Independência de Portugal face ao domínio espanhol (a dinastia filipina).A “estória” conta-se em poucas palavras e terá sido mais ou menos assim: o rei D. Sebastião (sim, aquele que está representado em estátua na Praça Gil Eannes, de Lagos, vá lá saber-se porquê...) e que tinha um parafuso ligeiramente desapertado (entre outras coisas) decidiu fazer guerra aos infiéis, em finais do século XVI. Embarcado em Lagos (a nossa cidade aparece quase sempre associada a situações manifestamente infelizes...) fez-se matar e com ele mais uns quantos em Alcácer Quibir.
Sendo que o jovem rei Sebastião não tinha descendentes (há até quem afirme que Sua Majestade não era muito virada para tal tarefa...), Portugal caiu sob o jugo castelhano (embora até hoje sejam muitos os que ainda esperam o seu regresso em noite de nevoeiro).
Foi neste contexto de triste “fado” nacional que em 1 de Dezembro de 1640, 40 conjurados decidiram que já estavam fartos dos castelhanos e dos seus lacaios. Ora, entre este, o mais odiado era um tal de Miguel de Vasconcelos e Brito, nada mais nada menos do que o Secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, em dependência do rei de Espanha. Quando percebeu que lhe iam “fazer a folha”, o tal de Vasconcelos escondeu-se (mal) num armário onde acabou por ser morto a tiro pelos conjurados restauradores.
Após ter sido varado pelas balas dos revoltosos, Miguel de Vasconcelos foi atirado por uma janela (defenestrado, do francês défenestrer), tendo o seu corpo caído no meio de uma multidão de populares enfurecidos que sobre ele deu asas ao seu ódio e cometeu algumas atrocidades (que só o nosso pudor impede de descrever agora).
Ora bem, esta boa acção de “defenestrar” caiu em desuso, infelizmente. Imagine-se, então, que esta boa prática não se teria perdido desde o século XVII e que hoje ainda poderia ser aplicada aqui, ou ali.
Por exemplo: um Presidente da República eleito com o dinheiro de um banco onde se faziam as maiores vigarices e que nomeou para Conselheiro de Estado um dos mentores dessas falcatruas, não poderia e não deveria ser “defenestrado”? E mais: que inventou um “esquema” de escutas que não existiam para favorecer eleitoralmente o seu partido de sempre em conluio com o director de um jornal imPúblico, não mereceria ser defenestrado?
Por exemplo: um Primeiro-ministro que tira a sua licenciatura a um domingo, que se envolve num esquema de “porto livre” ou que aparece numas escutas manhosas com o seu bom amigo daVara (suspeito de uma face oculta) não mereceria também ser atirado pela janela, hein?
Por exemplo: um presidente de um município qualquer, que promete publicamente a implementação do Orçamento Participativo e do Plano Director Municipal sem cumprir, que é multado pelo Tribunal de Contas por um ajuste directo na construção de um Complexo Desportivo, que vê recusado o Visto do mesmo Tribunal para obras de um estacionamento subterrâneo, que destrói um espaço de fruição pública, que rebenta milhões de euros num edifício municipal mal parido, etc, etc, etc, o que merece? Ser “defenestrado”, obviamente.
Pena que esta prática tenha caído em desuso. Mas, tudo faremos para a ressuscitar. Portugal merece-a.








